quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

calmaria

O vento passa por entre os pinheiros
Num sopro suave, dança, ao entardecer
Púrpuras, as nuvens, são como veleiros
Navegam em mar de céu de vista a perder.
Sossega, criança, a noite desprende devagar
Há caruma aos pés, musgo fofo de almofada
Bolotas e cogumelos, frágeis teias d’encantar.
Faz um barco de carcódia, partes com a alvorada.
Acolá, uma rã mergulha nas águas quietas
Cobertas de ervas e limos. E mais duas que saltam!
Mil cores reflectidas: libélulas de asas abertas
São as princesas que nesta história faltam.
Com folhas de castanheiro faço uma coroa bela
Sou a rainha orgulhosa deste pedaço de terra
Tenho um exército de bugalhos e uma espada amarela
Corro atrás dum gafanhoto e declaro-lhe guerra.
Toca uma orquestra inventada pelas ladeiras
Os muros passados a salto, em ritmos ermos
São entraves breves – há mil e uma maneiras
De viver outras vidas: basta querermos.

natal n'aldeia

Serve-se o silêncio à mesa
Em travessas regadas de azeite.
Fumegam as couves, a candeia acesa
O frio de nós: um doloroso enfeite.
Os copos de vinho cheios, tinto
No lugar onde abraços deveriam.
Somos poucos e demasiados – sinto
Que paz e amor há muito partiram.
Passa-me as batatas, tu, o bacalhau
O pão já partido, fatias de broa.
“O vinho escorrega bem, não é nada mau!”
E, mal disfarçada, a mágoa de sempre ecoa.
Polvilham-se de açúcar os dizeres
Na esperança (vã) dum Natal sereno.
Desde q’haja comeres e beberes,
As boas festas cospem-se num costume ameno.
São poucos à mesa – tanto faz menos ou mais
Pesado o ar, custa respirar, sufocamos
Presos em memórias de figuras ideais.
Levanta-se a mesa: nós não nos amamos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

o comprovativo de morada

Há coisas que, por muito boa vontade que tenha, não consigo compreender. Uma delas é o comprovativo de morada. Tomemos o seguinte exemplo:

Senhora ao balcão da TMN: Muito bem, agora só preciso dum comprovativo de morada...
Eu, apontando para a as condições de adesão a um certo serviço de Internet: Comprovativo de morada? Mas aqui só dizia para apresentar a carteira profissional e o BI...
Senhora da TMN: Sim, mas para fazer o contrato preciso dum comprovativo de morada ou da carta de condução.
Eu, já a ficar impaciente: Mas eu não conduzo. E não costumo andar com as contas da água e da luz na mala depois de as pagar... Podiam ter avisado. Então e não tem aí a minha morada no sistema?
Senhora da TMN: Não, porque a senhora tem a opção de carregamentos...
Eu, revistando furiosamente tudo o que é livro, agenda, carteira, em busca de uma conta ou carta qualquer, sem sucesso: Então e não posso levar já hoje o equipamento? Amanhã de manhã venho cá entregar o comprovativo... Pode acreditar em mim, eu sou boa pessoa! (Se fosse um gajo ao balcão, já o tinha conquistado com duas ou três piscadelas de olhos, de certezinha!)
Senhora da TMN, com ar de funcionária de repartição de finanças: Não, porque é preciso ter a sua morada para poder fazer o contrato...
Eu, suplicante: Mas eu digo-lhe a minha morada. E até ligo para uns quantos amigos para que confirmem que moro aí... Olhe, tenho aqui o cartão de eleitor, que diz "Junta de Freguesia de Alcântara". Serve?
Senhora da TMN: Não.
Eu: Chuinf...

Nota: Ligue-se à Internet em qualquer lugar? Pois sim... Se eu fosse sem-abrigo e não tivesse um comprovativo de morada - para alguma coisa positiva as contas tinham de servir, afinal... - queria ver se me podia ligar à Net no meu banco de jardim...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

duchamp tuga

Andamos em obras no local onde trabalho. Podiam mandar o pessoal para casa, mas nããããããoooooo... Para além do incómodo que é escrever ou falar ao telefone enquanto secretárias são arrastadas e paredes são raspadas e pintadas, há coisas que não se fazem a ninguém: levaram o urinol da casa-de-banho dos homens! Tenho para mim que um dos empreiteiros com mania que é o Duchamp o levou, à laia de "ready made", para fazer um centro de mesa para a ceia de Natal. De qualquer forma, já incitei os meus colegas masculinos à revolta: "Ei, gajo, não sejas mole, devolve-nos o urinol!"...

Jazz em mim

Jazz em mim.
Escrevo no peito contorno, morno
o epitáfio indelével, letra a letra bordado.
D’entre sépias flores secas, o adorno
dum beijo morto ao nascer, porque dado.
Jazz em mim, assim
numa imagem nascida dum cheiro,
numa dança que os sentidos engane,
escorrega-nos, licoroso, um gole de Coltrane.
Jazzas-me, pois, tão bem, homem inteiro.
E o gotejar e o chover palavra e gesto
em compassos delicados doces de quente.
Abraças-me, ampla, à mulher e ao resto
que na cadência te quer, te olha, te sente.
Jazz...
Assim creio: o teu corpo perece
no desfalecer e pele de nós liberta.
Sou! A terra que agradece
a vinda de ti em luz descoberta.
Jazz em mim. Sim?
Sulca-me de dedos as rugas, fugas
dos corpos nossos já sepultados.
Escavamo-nos. Recusa o ar que ainda sugas
que voz e cântico és, cinza e pós misturados.
Jazz em mim.
Assim.
Suspiros no ouvido em si bemol;
velam-se os mortos no vivo lençol.
Cessa, é finda a música. Schhhh... Devagar...
Não acordes agora. Embalo de repousar...
Jazz em mim. Assim...

para T., que me percebe e conhece.