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segunda-feira, 8 de outubro de 2007

it's all part of the process...

Diz o dicionário da Porto Editora que tenho sempre junto à minha secretária que por fobia se entende "medo patológico, sobretudo pelo carácter obsessivo, de certos objectos, actos ou situações; medo ou aversão impossível de conter".
Sendo uma típica gaja com problemas psicológicos e recalcamentos por resolver, as fobias fazem parte do meu quotidiano. A tal ponto que, por vezes, imagino como deve ser aborrecido viver sem uma ansiedade, uma pontadazinha de pânico, um tremor das pernas e das mãos ou um suor frio a escorrer pelo peito e costas abaixo. Não ter fobias, nos dias de hoje, não pode ser normal.
Na verdade, já tive grandes discussões pouco amigáveis sobre esta questão. Há tempos, um amigo quis fazer-me ver à força toda que ter fobias é um luxo ao qual se podem dar as pessoas que vivem nas sociedades mais desenvolvidas economicamente, sobretudo, nos grandes centros urbanos. Segundo ele, o Ti Manel das Couves, que se levanta com as galinhas para ir sachar o milho, não irá desenvolver qualquer tipo de fobia, pois o seu ritmo de vida, formatado para a subsistência, não lhe deixa margem para alimentar esse género de "paranóias". Em contraponto, quem vive num sistema maquinal - sujeito ao stress, aos apelos ao consumo, à rapidez da vida moderna - quando cumpre as necessidades básicas da pirâmide, começa a criar, na sua própria mente, uma série de problemas que, no fundo, não têm razão de ser, podendo até assumir um carácter absurdo. Ou seja, o meu amigo chamou-me maluca de uma forma mais ou menos "diplomática"...
Pois bem, não sei quem tem razão. E destesto teorizar sobre o assunto. Até porque, quanto mais esgravato na minha psique, mais neurónios avariados eu descubro. O que sei é que há, de facto, muita gente com fobias estranhas, cujo comportamento parece, no mínimo, bizarro. Como o amigo de um amigo que não consegue sentar-se junto a pessoas que não conhece num restaurante ou no cinema. Ou outro que tem uma aversão extrema às maçãs, ao ponto de lhe fazer confusão ver alguém a comer uma. Pois... Eu cá, por exemplo, desde há três anos que prefiro percorrer meia Lisboa de autocarro a meter-me sozinha no metro. Vá-se lá saber porquê, houve alturas em que o pensamento de ficar parada no meio de um túnel era o suficiente para ficar branca como a cal e começar a falhar-me a respiração. Por isso, só andava de metro acompanhada, para ir distraída com a conversa. Claro que não é algo que se possa divulgar a toda a gente, correndo o risco de levar com paternalismos do género "isso não é normal", "tens de forçar-te a andar sozinha", ou a minha preferida: "tens de ir a um psiquiatra!"
Consultas de psiquiatria à parte, nada melhor que deixar o tempo correr, não forçar situações que nos põem pouco à vontade e, aos poucos, ir resolvendo as possíveis causas dos nossos medos. Pelo menos no que a mim me diz respeito, é assim que tem funcionado. Ao ponto de, no passado sábado, em virtude de a SIC ter feito o favor de fechar a Avenida da Liberdade, impossibilitando a circulação de autocarros, lá tive de apanhar o metro para ir ao cinema no Saldanha. Sozinha!
Hesitei, claro que hesitei. Noutras alturas, perante tal dilema, facilmente resolvia o problema indo a pé, já que pernas para andar, felizmente, não me faltam. Contudo, desta vez achei que poderia arriscar. E... o metro não parou, não houve nenhum atentado com gás-pimenta, a luz não foi abaixo, as portas abriram sempre, eu não fiquei ansiosa e a respiração desenvolvia-se normalmente. Mudei de linha tranquila e andei mais duas estações. Nada de terrível aconteceu.
Saí da estação tão orgulhosa de mim mesma que o sorriso parvo na cara ainda permaneceu durante uns largos minutos. Não obstante, ainda prefiro andar de autocarro. Lisboa tem muito mais piada à luz do dia... Por isso é que, ao sair do cinema, fui até casa a pé. Esperem até eu comprar uma bicla. Aí é que vai ser!

sábado, 6 de outubro de 2007

vibrações sonoras

Há dias, quando fazia uma entrevista a uma banda portuguesa, a certa altura, a conversa virou para outros temas que não os últimos trabalhos. Um dos elementos da banda referiu a importância que o nosso nome tem no desenvolvimento da pessoa que somos. Isto porque, defendia ele, ao longo da nossa vida somos constantemente "bombardeados" com as vibrações sonoras que o nosso nome transmite ao ser pronunciado por quem nos rodeia. E isso irá, com toda a certeza, ter um efeito sobre o modo como nos desenvolvemos física e psiquicamente.
Ora, não sendo eu uma pessoa dada a esoterismos - de facto, até sou bastante pragmática na maior parte das minhas acções e sentimentos - não pude deixar de ficar a pensar nisto. Já havia dedicado algum tempo a pensar como certas pessoas parecem ter um nome que lhes assenta que nem uma luva, que seria difícil imaginar certos indivíduos com outro nome que não o seu, o que é, claro está, fruto do hábito e do nível de familiariedade que temos com essas pessoas. No entanto, nunca tinha pensado que a "etiqueta" que nos colocam à nascença pode, de facto, determinar a pessoa em que nos tornamos.
Se isto está provado cientificamente? Provavelmente não. E também não fui perder tempo à procura de estudos que corroborem esta tese. Cá para mim, o tipo da banda até podia estar a alucinar em ácidos, que a mim tanto me faz. A questão é que o tópico me interessou. E porquê? Porque, tal como muita gente por esse país fora, fui "abençoada" com dois nomes: um nome próprio, bem bonito, por sinal (Laura) e um outro nome que, por razões de extremo embaraço, não vou revelar. Nada de anormal até agora, até porque, como toda a gente sabe, o segundo nome não tem outra função senão ser usado quando os nossos pais estão zangados e à beira de nos dar uma valente sova. Nada de anormal, vírgula, não fosse o caso de toda a gente da minha família e da terrinha onde vivi até aos 18 anos, me tratar somente pelo meu segundo nome.
Ou seja, se de facto as vibrações sonoras interferirem na minha psique, esta divisão entre "D. Jekyl" na minha vida quotidiana e "Mr. Hyde" quando vou a casa dos meus pais ou falo com eles ao telefone, só pode ter resultados nefastos no meu equilíbrio mental. Começo finalmente a perceber muita coisa...

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

cobras cuspideiras

Não sou de me impressionar facilmente. Tão pouco faço figura de fraca perante algumas situações menos aprazíveis. Não desmaio quando vejo sangue. Não deixo de fazer análises perante a perspectiva de ter uma agulha espetada no braço. Ir ao dentista, não sendo agradável, não representa um acto de sofrimento. Vivi numa residência de estudantes onde por vezes era necessário deitar para o lixo tupperwares que ameaçavam sair do frigorífico pelos seus próprios pés. Já mudei fraldas a sobrinhos e, diariamente, limpo o caixote do gato, o que é uma chatice, pois apesar do aspecto fofinho, os gatos não vêm interiormente munidos de Brise Contínuo... Resumindo, não há muita coisa que me meta nojo.
Ainda assim, há um acto que, mais do que me causar repulsa, me provoca uma autêntica vontade de vomitar. Não sei porquê, mas acontece. E, vivendo no país em que vivo, já deveria estar mais do que habituada. Mas é escusado. Não consigo. Estar à espera do autocarro ou do eléctrico, descontraidamente, de livro na mão, e mesmo à minha frente alguém passar e mandar uma cuspidela para o chão, é o pior que me podem fazer. Sinto logo o vómito a subir-me pela garganta, uma agonia tremenda, um desejo de desancar o cuspidor (ou cuspideira, que há por aí muita senhora que não se coíbe de mandar a sua cuspidela...).
Ok, talvez eu seja picuínhas. Talvez seja, afinal de contas, impressionável. Mas a minha dúvida permanece: o que é que leva alguém a, em plena rua e perante os incautos transeuntes, sacar de uma bola de cuspo (quando não é algo mais consistente, mas disso já nem vou falar, sob o risco de começar a ficar, eu própria, com uma cor esverdeada...) e, alegremente, fazer pontaria em direcção à rua ou ao passeio? Qual é o grande segredo que reside por detrás deste gesto? Qual é a génese da cuspidela? Qual a motivação subjacente a este hábito de tantos portugueses e portuguesas? A minha dúvida é sincera pois, para mim, cuspir é completamente anti-natural. Eu não preciso de cuspir, a não ser que tenha na boca algo desagradável (espaço agora para trocadilhos mais bardajões relacionados com a prática de sexo oral e quejandos, ahahahah, pronto, agora que já rimos um bocado, voltemos ao que é importante...).
Pesquisando brevemente na Wikipédia, que não é uma fonte muito fiável, mas que para este propósito, até serve, percebo que, de facto, a saliva exerce diversas funções reguladoras no nosso organismo. Sendo assim, qual é a necessidade quase vital e furiosa que tantas pessoas parecem sentir de se livrar desta substância - que, ainda por cima, é essencialmente composta de água? Continuo sem entender...
Acharão, porventura, os praticantes da cuspidela, que os pequenos lagos de cuspo que vão deixando à sua passagem exercem um efeito decorativo? Será que a quantidade de saliva que produzem diariamente atinge dimensões pavlovianas, sendo que têm de se livrar dela a todo o custo? Ou serei eu que não atinjo a dimensão sociológica e antropológica deste acto, que poderá representar um exercício de integração, uma espécie de "diz-me como cospes, dir-te-ei como és, qual o tamanho que calças, quantas vezes te coças em sítios menos próprios e quantas vezes limpaste os ouvidos no último mês..."? I still don't get it.
De qualquer forma, tenho para mim que a minha saliva é demasiado importante para andar a desperdiçá-la pelas ruas da cidade. Para além de ser de extrema utilidade no acto de lamber envelopes - uma prática ancestral que está a cair em desuso com a aparição dos envelopes com fecho autocolante - a minha saliva é uma preciosidade a partilhar apenas em situações especiais que, normalmente, envolvem a saliva de mais alguém... Mas isso agora não é para aqui chamado. O que interessa é que fica aqui um aviso às "cobras cuspideiras" que por aí andam: tenham cuidado com os locais onde cospem, pois eu posso cair-vos em cima!

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

"Obrar" em português

O ritual de chegar a casa e abrir a caixa do correio vem, normalmente, acompanhado de um suspiro, ao descobrir mais uma conta para pagar ou, na melhor das hipóteses, os panfletos da Telepizza. Às vezes também encontro cartões e "flyers" com os contactos de pessoas que arranjam tudo, desde estores a esquentadores... Dá sempre jeito, uma vez que, actualmente, a habilidade dos homens que conheço para a bricolage termina no acto de trocar uma lâmpada.
Há dias deparei-me com mais um "flyer". A princípio, nada de suspeito: as obras que a empresa executa, os contactos e a garantia de fazer orçamentos grátis. E até me ri ao ler a frase "somos portugueses". Só uns segundos mais tarde achei estranha aquela afirmação. Somos portugueses? Mas o que é que isso interessa? Fiquei mesmo danada! Comecei a pensar em conceitos como a oferta e a procura e concluí que, se há empresas que exibem no seu cartão de visita o facto de serem cidadãos portugueses, isso só pode significar uma coisa: que há clientes que exigem essa condição para que alguém lhes entre casa adentro. "Um preto ou um ucraniano a mexer-me nas persianas? Era o que faltava!"
E até parece que já estou a ver o Vladimir, de olhos azul céu e cabelo louro espiga, vestido com uma t-shirt da Selecção a dizer "Cristiano Ronaldo" e a cantar o hino nacional numa pronúncia mal disfarçada enquanto atira um pedaço de estuque à parede... "Olhe lá, você é português? Tem a certeza? Ah, claro que deve ser, a cantar o nosso hino assim tão bem... Vamos lá, que eu acompanho-o: Heróis do mar, nobre povo..."
Por esta ordem de ideias, já que nas relações empresa-cliente cada um parece estar a valer-se dos trunfos que tem, mesmo que isso signifique estropiar os direitos humanos, a partir de agora só admito lá em casa electricistas e canalizadores que me tragam o certificado de qualificação profissional, não confundam o "há" com o "à", falem no mínimo três línguas estrangeiras, se pareçam com o Edward Norton, me façam um desconto de 50 por cento na conta da reparação e, antes de sair, me lavem a loiça que tiver ficado do dia anterior. Afinal, o cliente tem sempre razão!

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Désáine



- E aquilo é o quê?
- É um buraco na parede...
- Sim, mas porque tens um buraco na parede?
- Bem, a ideia inicial foi pendurar um quadro, mas...