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segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Broa quente com manteiga

Gosto de voltar à aldeia de onde vim. Por vezes não gosto das pessoas, de ter de falar com as pessoas, mas faz-me falta respirar aquele ar, recordar as memórias de tempos idos, perceber as mudanças, saber quem já morreu, descobrir que traços se perderam e quais permanecem.

Lá, as estrelas brilham tanto nas ruas escuras que percorro de bicicleta. As subidas custam, mas o ar da noite tranquiliza-me. Sei de cor cada pedra, cada buraco na estrada, cada curva e cada esquina. A luz fraca dos candeeiros é rapidamente esquecida pela imensidão deste céu. Encosto a bicicleta ao muro e fico a ouvir os grilos.

Tem já 81 anos, o tio Zé. Penso muitas vezes quando morrerá. A figura pequena e seca, lembro-me dele assim desde sempre. Encostado a um pau nos últimos tempos, mas curtido pelo passar dos anos, das chuvas e dos ventos. Uma raíz seca e resistente no meio do mato. Fala com a sabedoria tranquila de um patriarca, de um ancião a respeitar. Imagino que o frágil corpo se possa quebrar com facilidade enquanto as rugas da cara envolvem um riso alegre de homem do campo. Mas a carne seca está bem rija, como que posta ao fumeiro. Vai um copo de vinho, ó rapariga?

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Salta-pocinhas

Casa nº 1
A casa paterna, algures na Beira Litoral, paredes meias com paisagens serranas. Uma infância e adolescência passadas no campo com saída aos 18 anos. O quarto está praticamente como o deixei.

Casa nº 2
Um quarto numa residência de estudantes, partilhado com mais duas raparigas. Uma cozinha e 4 frigoríficos para cerca de 80 pessoas. Foi onde descobri que havia pessoas que até alface guardavam no congelador... E também onde aprendi a cozinhar iguarias como arroz com atum e salsicha.

Casa nº 3
Um quarto alugado numa cave em Campo de Ourique. Fiquei apenas seis meses, o suficiente para perceber que me fazia falta a luz solar e descobrir que não convivo bem com ratazanas...

Casa nº 4
Um quarto alugado em Sete Rios, perto do Jardim Zoológico. Era frequente acordar de manhã com a chinfrineira dos macacos e dos elefantes. Assim como com as cantorias da tuna académica da universidade logo ao lado. Acordar com "a mulher gorda, a mim não me convém" às 3 da manhã não é a minha ideia de noite bem dormida. Foi o lar durante um ano...

Casa nº 5
Vida suburbana algures na linha de Sintra num 8º andar partilhado durante três anos e meio. Dos melhores tempos da minha vida.

Casa nº 6
Uma passagem temporária por um apartamento na Amadora. Para esquecer.

Casa nº 7
Uma compra meio apressada, mas completamente justificada. 45 m2 de pura dívida ao banco partilhados com um feroz e gordo gato. Sem ratazanas nem tunas...

Buen camiño!


De vez em quando é bom andar de casa às costas. 2006 foi ano de caminho português de Santiago. Talvez 2008 seja ano de caminho francês. A pé ou de bicicleta. Companhia procura-se.