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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

mikado

encontrei no fundo da gaveta
um velho jogo de mikado
e lembrei-me
que tinha para te dar
um recado.
mas fechei a gaveta
e deixei-o
lá guardado.
quando voltei
a buscá-lo
o recado
tinha-se evaporado.

domingo, 25 de outubro de 2009

nove dígitos

o teu número de telefone
é o único
que sei de cor
numa agenda de nomes
por ordem alfabética
pode tratar-se de amor
ou de uma simples
crise poética.

domingo, 18 de outubro de 2009

bonita eu sei lá



fui buscar as botas
e deitei-lhes sebo avulso
com gestos fortes do pulso
que o frio do inverno demora
mas eu não vejo a hora
de saltar nas poças de água doce
como se ainda menina fosse.

passa o 45
para o prior velho
e o meu coração bate
vermelho, vermelho.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

desuso

já ninguém diz sobrescrito
nem se usa passar a limpo.
eu gostava de escrever cartas
e passá-las a limpo
escrever moradas
em letra cuidada
num branco sobrescrito.
já ninguém diz rebobinar
e a mim às vezes
dava-me tanto jeito
voltar atrás.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

no trinco

sabes de cor o som
de todas as minhas
fechaduras.
não deito trancas
à porta por ti.
quando sorris e me reconheço
és a minha ombreira.
sabes ao longe
as voltas das minhas chaves.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

sorriso de domingo

tinha um poema
escondido aqui na minha cabeça
que me fugiu durante o sono.
não se faz!
e não se escreve a palavra poema
num poema,
dizem.
fui dormir e pela manhã
já não tinha o poema
somente memórias
confusas
e palavras avulsas
diluídas
num sorriso de domingo.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

calçada do combro

vi o teu nome
ontem num cartaz já rasgado
apenas um bocado de papel
velho e desactualizado.
enquanto subia
a calçada do combro
faltaste-me
recordei o calor
do teu ombro.
o teu nome,
numa parede
num cartaz rasgado.
suspirei fundo
e não quis seguir em frente.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

cêr ou não cêr

ele andava
na vida precário
até que encontrou
emprego num restaurante.
pôs uma gravata
e tornou-se preçário.

terça-feira, 16 de junho de 2009

lengalenga

vazia
vazia
acordei eu
um dia
oca
oca
ninguém
me beija
na boca.

obecidade

sinto-me obesa de dor
indiferente a capitulares e pontuações
quando muito uma pausa irreflectida
num adelgaçar do espírito
que pesa.

falta

e num pequeno
tão breve momento
se perde
todo o alento.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

inadaptidade

tens seguro de saúde
plano poupança reforma
contas a prazo, acções
amealhas uns tostões?
e objectivos concretos
tens o esquema traçado
as ideias bem focadas?
olha que isto é tramado
o tempo está aqui
está passado.
com essa idade não se anda
a experimentar a vida.
não tenho seguro de saúde
nem plano poupança reforma
a conta a prazo, vazia
e as acções dão-me azia
os tostões caem-me dos bolsos.
o esquema muda todos os dias
as ideias, todas as noites
o tempo, sim, vai passando.
teimam em fazer-me velha
e eu, com esta idade
ainda ando a experimentar a vida.
que atrevimento o meu!

sábado, 13 de junho de 2009

mono

perguntaram-me ontem por ti.
e eu nada sei.
hoje saí da cama, liguei a tv
e verti lágrimas
a ver a "anatomia de grey".

terça-feira, 9 de junho de 2009

tensão baixa

pensava que íamos
comer uma redonda e açúcarada
bola de berlim.
não sabia que tinhas lanchado
sem mim.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

de santos ao calvário

desço a rua das verdes janelas
com o periquita
a fechar-me os olhos
um sinal, dois
verdes, vermelhos
raios tantas cores
o eléctrico pára
de propósito para mim.
procuro a chave de casa
no fundo da vida.
trago uma cassete
debaixo do braço e
bate-me uma meia dúzia
de pensamentos.
és aquele
em que mais confio
mas roma ao contrário
é como pavio
não se fez
num dio.
perdoa-me a liberdade estética
é tramada
esta pobre poética.
e nada mais interessa
porque a gente
é linda.

tiranias do destino

resolveram matar-se
à porta de uma pastelaria.
foram manchete dos jornais
no dia seguinte:
"cometeram suicídio em massa folhada".

caixa de texto

cheira-me que hoje
morri um bocadinho.
ponham-me mais terra em cima
para não se sentir
o odor
da saudade.

guardar como

estúpidos dias
estes
cheios de pontos
e vírgulas.
os caracteres contam-se
sempre
com espaços.
o que seria
do carácter
da paixão
sem o word?
uns míseros
seis caracteres.

rasurado

não consigo escrever uma linha
tenho os olhos cheios
de wingdings

novo documento

olho para a folha branca
presa no monitor
e apetece-me amarrotar
tudo o que escrevi.
a tecnologia
não me deixa rasgar
riscar, amarfanhar
maldita sejas
arial 12
com espaçamento a 1,5.