quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

maria teresa

"Lembras-te daquela rua
que era minha
e hoje é tua..."

Pega-me no braço com força, como quem só tem o meu braço para se prender ao mundo. De olhos vazios procura o que não sabe em redor, no espaço onde tudo está ausente. Quer ir para o Montijo, precisa de dinheiro para um táxi para o Montijo, desesperadamente, já nada faz ali, naquela rua, naquela casa que deixou, nos braços dum companheiro qualquer... Agarra a mala com mais força ainda e respira fundo, como fazem as grandes senhoras antes duma revelação. Penteia os cabelos, toda ela é grave. Onde é que já vai Luanda, onde é que já vai o Luiz Pacheco, onde é que já vão os filhos, onde é que já vai Bruxelas, tem aí algum número de telefone para onde possamos ligar?, este rapazinho é bisneto do Duque de Palmela, é um bom moço, onde é que já vai a vida longa... esqueceu-se da vida. Eu não tenho ninguém, ninguém, percebe? Mas ia para o Montijo. Mirandela, conhece Mirandela? Qual Trás-os-Montes, Mirandela! Numa boca de lábios finos e secos forma-se a melodia, a tristeza de quem já não sabe se vai, se fica. Ali, ali, eu vou-lhe mostrar onde é que ele está à minha espera, ele está ali!! E foge, foge, larga-me o braço, larga-se do mundo que já não existe há tanto, tanto tempo... Lembras-te daquela rua?

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

fecha os olhos. respira fundo. sorri.


Hoje acabei com a garrafa de vinho. Estava a precisar. O gato enrosca-se, ritualmente, junto aos pés. As vizinhas tagarelam nas escadas, ouço-as. Há pouco passou uma ambulância. Sinais secretos... O casaco quente, de lã, pende-me nos braços. "Estás com uma voz triste..." "Isto passa, amanhã já estou a sorrir outra vez. Hoje só preciso de estar assim, como um bichinho-de-conta, no meu refúgio." O gato dá uma reviravolta. Afago-lhe a barriga rosada por alguns segundos, poucos. O eléctrico galopa pela rua e sei que estou em casa. "Até amanhã..."

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

"é magenta, a ver se a editora aguenta..."


A rima não é minha, mas o autor não se importa de me ceder os direitos... Vou neste momento no terceiro copo de vinho (o primeiro foi para comemorar a promoção, o segundo para comemorar outras boas notícias, o terceiro, já em casa, porque sim!), e sinto-me genuinamente feliz. Feliz porque, mesmo nos momentos de maior crise, há sempre alguma coisa boa a acontecer - nem que seja a inspiração para escrever; feliz porque gosto da vida que construí para mim; feliz porque em meu redor tenho boas pessoas de quem gosto e que - penso - gostam de mim; feliz porque, finalmente, o esforço e valor são reconhecidos; feliz porque todos os dias aprendo algo novo e me apetece fazer mais; feliz porque um colega de trabalho me abraça sem razão e sabe bem; feliz por receber sms de parabéns sinceros; feliz porque o gato está neste momento a pisar o teclado do computador em busca de carinho, o que me obriga a refazer parte desta frase, mas não me importo; feliz porque hoje dei um presente e recebi outro (na foto) em troca; feliz porque estou a começar de novo no mesmo sítio, mas a começar de novo; feliz porque o tempo parece aguentar-se para amanhã ir trabalhar de bicicleta. Ah, e feliz porque a parede do gabinete novo é magenta...

domingo, 6 de janeiro de 2008

la dolce vita

Após três dias de "hospitality club", em que não houve muito tempo para confraternizar devidamente, mas em que houve um esforço sincero para explicar porque é que se comem chocos com tinta, encontrar uma definição para "corvina" e "robalinho" para além de it's a kind of fish, chegar ao conceito de "fartura" (Charingo) através da imagem dum churro, dar exemplos da enorme diferença entre saudade e melancolia, aflorar "Os Lusíadas" e esclarecer quem é o monstro do miradouro, esclarecer que, normalmente, não dançamos tango, sevilhanas nem capoeira e desmistificar a ideia de que todo o fado é triste, a principal conclusão de quatro italianos de Torino é: portuguese are weird.

Ao que eu acrescento: portuguese are weird, but they weird it better!

grogue

Ver concertos e bailar, trocar rimas e juras de amor por entre copos de licor, dar carinhos e mimos sempre que for preciso, contar anedotas parvas e inventar trocadilhos ainda mais parvos, criar telepatias tolas e rir sem motivo, procurar pelas ruas indianos com rosas e picatchus amarelos, falar de música, ouvir ainda mais música, pousar a cabeça no ombro e confessar os melhores e os piores momentos do dia, dar abraços apertados, inventar nomes disparatados para gatos, andar pela noite de mão dada, gostar de Lisboa e amar a Beira, sorrir e cantarolar com um copo de vinho à frente, partilhar histórias do que foi e do que virá, gostar sempre e sempre mais, ter saudades quando se está longe, "foder amor" num suspiro bom e quente, usar todas as palavras possíveis para entrar na pele do outro, embalar os corpos, sossegar, abraçar, partilhar e amar, transportar na voz um sorriso e no peito um calor bom. Estar grogue.