Depois do fogão Meireles, do micro-ondas Heitor e do frigorífico Zézito, em breve abrirei a porta de casa à Samsunga, a máquina que lava a roupa e não resmunga!
Todos passam por mim hoje. Ou serei eu que passo por eles? Há pouco vi um homem-aranha no eléctrico. Abriu a boca e rugiu, como se fosse um dragão. Ui! Que medo! Está mais frio hoje, ou é o calor que me falta? Sento-me na praça, num banco vazio, rodeada de grandes palavras em ferro. Amor enferrujado. Escrevo um postal para entregar em mão. Não quero que as palavras se extraviem no caminho. Estico as pernas e vejo as nuvens. Não são as mesmas nuvens de há dias atrás. Falta-lhes a música. Haja música, então... Começo a ouvir, no silêncio de mim, o "shalalala" duma melodia. Passam todos por mim, hoje. O homem cego continua a tocar os únicos acordes que conhece, enquanto uma estátua humana arruma os pertences para ir em busca de melhor. Quando dobro a esquina, um velho de barbas olha para o vazio enquanto vai atirando para o chão rodelas de chouriço. Brotam como flores em redor. Passo por todos e logo me esqueço de cada um. Lamento informar... Vou só cair um bocadinho, para depois me levantar, está bem?
Mergulhamos na pele, gesto que seduz Cadência suave, de voz viva Película cravada de luz. A chuva devagar escorre lá fora Enleiam-se abraços na melodia Um vento leva as memórias embora. Dormes. Ausente e puro Sós, respiramos silêncio Entrecortado por meigo sussurro.