quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

sorriso de pudim

"As pessoas não dizem vezes suficientes a palavra pudim."


foto de rspiff emprestada daqui.

Obrigada, rspiff, meu "irmão adoptado", por teres plantado um sorriso largo e terno no meu rosto com esta afirmação.

Vou passar a dizer mais vezes "pudim". Tantas quantas digo "caruma"...

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

sopa altamente calórica

Os meus hábitos alimentares dificilmente poderão ser designados de "hábitos". Quero com isto dizer que, da mesma forma que num dia devoro um suculento cozido à portuguesa ou uns carapauzinhos com açorda, alturas há em que passo em branco a hora de almoço ou me fico com uma sopa de "hortalisa", como vi há pouco anunciado. O hábito não faz a manjedoura, ou qualquer coisa do género...
Isto para dizer que hoje foi um daqueles dias em que almocei em 10 minutos: "Boa tarde, senhor Avelino. É uma sopa e uma empada de galinha, se faz favor..." E abençoado seja o meu auto-controlo! Gostava de saber quem foi a alminha que, um dia, teve a “linda” ideia de criar balcões de vidro. É certo que é um regalo para a vista entrar numa pastelaria ou restaurante e dar de caras com todas aquelas iguarias maravilhosas, que são também um “regalo” para as ancas e para o rabo de muita gaja que por aí anda...
Felizmente, posso dar-me ao luxo de comer todas as gulodices que quiser, já que, como descobri recentemente, as calças do tempo da escola secundária ainda me servem! Mas não é isso que está em causa. O que está em causa é que não é bonito, para alguém que está de pé, ao balcão, de cara metida na sopa, olhar para a superfície onde repousa a malga e... ele é tortas com creme e pastéis de nata, bolas de berlim e tarletes de mil cores, queques de sabores vários e tacinhas de pudim, bolos folhados e delírios de chantilly...
Ou seja: eu posso ter comido apenas uma sopa, mas os meus olhos devoraram uns belos milhares de calorias!!! Ainda bem que os olhos também comem, mas não engordam...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

escrever amor


enruga-te em torno dos meus olhos

Grita o teu corpo pelo meu
“Ouves?”
“Ouço.. Schhhh!! Deixa ouvir...”

Se fechar os olhos estás
Aqui comigo.
Ouço a tua pele gritar e o meu corpo
Dança para ti.

Suamo-nos.

Continuo de olhos fechados
E abraço-te.
És o meu poema de rimas ausentes.
Sou escrever para ti
Vamos?
Lambuzarmo-nos de palavras.
Foder como quem escreve
Escrever como quem fode.
Contigo. Para ti.

“Sentes?”
“O quê?”
“O silêncio que vejo aqui da janela...”
“Sim, sinto. Vejo a mesma noite
e as mesmas estrelas que tu”

Trazes as palavras à flor
Da pele.
Quando me descubro, em ti,
Todas as palavras se soltam.
E já não sou eu
Mas um poema
Moldado pelos teus dedos.

Saudade.
Toda.
Todo.
Tanto. E mais tanto...

“Escreve palavras no meu corpo”
Escrevo sim.

“Sou o teu caderno”
Abro-te, em gesto delicado.

“Usa-me!”
Sempre e sempre. Tanto.
Suave saudade eternidade eternecidade efemeracidade
Tanto, tanto!

Mordo a maçã suculenta e verde
E é a tua carne
E és tu nos meus lábios.
Polpa, língua, desfaz-se
Sem pecado, só prazer.

“Ouves o meu corpo gritar por ti?”

Traço a minha caligrafia tremida
Nos recantos de ti.
Faço da tua pele o meu caderno, vinco-te letras
Doces ou impulsivas
Na medida do prazer.

Vou, assim, escrevendo amor contigo.
Quero, assim, foder amor contigo.

“É teu, tão teu...”

domingo, 9 de dezembro de 2007

gostar de palavras

"Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem compassadamente silenciosamente duma igual vivificante seiva.
[...]
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo, mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor."
*



*Excerto de "Comunidade" de Luiz Pacheco


Estou à beira de mudar de década. Daqui a 22 dias faço 30 anos e estou tranquila. Não sei como vou passar a noite, tão pouco o que farei durante o dia. Talvez entre no novo ano apenas na minha companhia, mas estou serena. Os últimos anos não têm sido fáceis, mas lentamente vou conquistando, finalmente, a paz de espírito de que necessito. Pesem embora as feias e indeléveis cicatrizes que me enfeitam o corpo e os gestos - como diria alguém que conheço, as cicatrizes (as físicas, mas penso que se pode dizer o mesmo das outras...) são "marcas da vida, sinais bonitos, um mapa alternativo do corpo, tatuagens involuntárias" - gosto da vida que fiz para mim.

Estou à beira de fazer 30 anos. E sei que vou gostar de os ter. Se os vou celebrar? Talvez, mas em silêncio. Com um bom vinho e um sorriso largo. A guerra tem sido dura, mas já levo a vitória em algumas batalhas, sei-o. Para ti, homem que foste meu, que prometeste estar comigo nesta altura e em todas as outras e não estás: tenho pena. Poderia ter sido para o resto da vida. Não foi. Já parei de chorar por ti. Demorou alguns anos, o luto. Foi preciso travar graves lutas comigo e com outros, mas parei já. Cresci muito. Muito mesmo. Mais do que já havia crescido antes de ti. E lamento que não estejas por perto para ver e admirar a mulher que me tornei.

Estou à beira de fazer 30 anos. E apesar de hoje ter visto um presente que gostava de receber - a obra "Comunidade", com texto de Luiz Pacheco e pinturas de Cruzeiro Seixas - o preço é absolutamente proibitivo para mim, jornalista tesa, e para todos os meus, muitos deles, igualmente jornalistas tesos (afinal de contas, a minha livraria preferida ainda continua a ser a Feira da Ladra)... A não ser que consiga negociar com o banco o não pagamento de duas prestações do meu crédito à habitação. Passaria a viver, literalmente, debaixo da ponte, mas com a obra de Luiz Pacheco para me dar alento.

Sonhos à parte, estou à beira de fazer 30 anos. E se algum dos meus amigos, amigas, leitores e admiradores (eheheh... pois sim!) quiser surpreender-me e fazer-me sorrir no dia em que mudo de década, é simples: é oferecer-me um exemplar de "Comunidade", não da edição de 750 euros, mas uma qualquer edição. Não é fácil, dada a raridade do livro. Mas pelos excertos que consegui ler aqui e ali, é daquelas obras que nos fazem gostar ainda mais de palavras. E como eu gosto de gostar de palavras...


sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

a dor escondida

Com vergonha, não tiro o casaco, para não se ver as marcas no braço... Ele não fez por mal, digo para mim própria, para me tentar convencer de um amor qualquer. Ele não vai voltar a fazer-me isto, repito. A conversa matinal é igual a tantas outras no passado.
- Então, que se passa com o teu braço?
- Hum... Dei um mau jeito ontem à noite...
- Não me mintas. Foi ele outra vez, não foi?
- Foi... Mas foi a última vez. A sério que foi!
- Ouve, é sempre a última vez. Até que volta a acontecer... Vivem juntos há cinco anos, já é mais que tempo de ele te respeitar!
- Mas ele ama-me! Eu sei que ele me ama...
- Isso é um amor doentio, então... Ouve, não achas que está na altura de procurares ajuda?
- E o que é que queres que eu faça? Que o deixe? Que o abandone? Eu sei que ele não pode viver sem mim...
- Tu mereces melhor. Como é que uma pessoa como tu se pode deixar magoar e manipular dessa forma? Um dia ele pode magoar-te a sério. E depois como é que vai ser?
- Que queres... Eu amo-o!...

Após um terrível ataque felino cujos pormenores me vou abster de descrever, não sei se chore por causa dos arranhões, das dores e do inchaço no antebraço; ou se ria, por causa do ridículo que é estar no trabalho com o braço todo pintalgado de betadine... O que vale é que só me dói quando escrevo...